Um Milhão

Em 2008 eu era Presidente da Câmara Municipal de Ribeirão Preto, que tinha para aquele ano um orçamento de 33,5 milhões de reais.


Pela legislação, esse dinheiro não pode ser aplicado financeiramente, permanecendo na conta bancária do Legislativo até o final do ano, quando a parte que não foi utilizada para as despesas da Câmara é devolvida para a Prefeitura.


No início daquele ano fui procurado pelo gerente de um banco privado, que queria falar comigo.


Recebi o visitante em meu gabinete e na conversa ele se mostrou muito bem informado a respeito do Legislativo Municipal, conhecendo o montante do orçamento da Câmara para aquele exercício e a proibição de aplicação daquela verba em instituições financeiras.


Em seguida falou sobre o trabalho do banco que ele representava e sem mais rodeios me fez uma proposta. Queria que eu transferisse a conta bancária da Câmara, que eu administrava, do Banco do Brasil para seu banco. De imediato respondi que, por uma questão de princípio, eu não mudaria a conta de um banco estatal para um banco privado.


Em seguida ele insistiu, fazendo a oferta de me dar 1 milhão de reais se eu fizesse a mudança da conta, conforme ele pretendia e ainda argumentou:

“Você não vai roubar nada de ninguém. Basta transferir a conta para nosso banco. Podemos te dar 1 milhão em dinheiro, depositar em nome de um ”laranja” por você indicado ou mesmo em uma conta sua no exterior”.


Fiquei perplexo. Jamais esperava ouvir de alguém uma proposta indecorosa como aquela, dita com tanta naturalidade.

Então eu lhe disse que a honestidade é um princípio que sempre me norteou e assim meus pais me ensinaram.


Falei ainda que fui militante da ALN (Ação Libertadora Nacional) e lutei de armas na mão contra a ditadura militar, participando de várias ações de expropriação com o objetivo de conseguir fundos para a Revolução e jamais me passara na cabeça utilizar nenhum centavo daquele dinheiro em proveito próprio.


Disse também que, exilado no Chile, o comando da minha Organização pediu que eu guardasse alguns valores em minha conta bancária, que foram integralmente devolvidos ao grupo guerrilheiro quando solicitados.


Levantei-me para despedir e percebi que o visitante estranhou muito minha fala e meu semblante reprovador. Ao sair ele disse:


“Se você mudar de ideia me procure”.


Pela liturgia do cargo que ocupava, não pude mandá-lo para o local que o homem merecia, enquanto ele se retirava fechando a porta.


Leopoldo Paulino

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