Prisão no Golpe do Chile: Morrer por causa de uma Cueca Amarela!


Enquanto a polícia da ditadura chilena espancava a mim e a Encarnación, dentro do meu apartamento em Santiago, eu argumentava dizendo-lhes que não conhecia nenhuma Denise e que era professor de Música.


Em dado momento, um policial encontrou em um dos guarda-roupas da casa uma tira amarela que pertencera a uma cueca “zorba” esquecida no apartamento quando viajei para a Europa e que Encarnación havia cortado.


Em virtude de militantes da Resistência estarem usando fardas militares para confundir os golpistas, os policiais e militares da ditadura chilena começaram a usar uma tira de pano amarrada ao braço, cuja cor mudava a cada dia, para que não fosse utilizada também pela Resistência.


Naquele dia a tira amarrada era amarela, quase idêntica à da cueca que o policial encontrara. Encostando a tira da cueca junto à que portava, concluiu o policial que nós estávamos engajados na Resistência contra Pinochet e, o que é pior, que utilizávamos a senha do dia.


De imediato, percebi que a situação se complicava, até porque, no Chile, não se utilizavam na época cuecas desse tipo, mas somente cuecas estilo “samba-canção” - logicamente, os policiais duvidariam de minha explicação.


De qualquer modo, disse-lhes que aquele pedaço de pano nada mais era que parte de uma cueca e pensava em mostrar-lhes como comprovação, outra peça de roupa do mesmo tipo, quando os policiais se irritaram e passaram a me espancar.


Embora tenso, pensei sobre o ridículo da situação em que me encontrava, pois, afinal, estava apanhando por causa de uma cueca “zorba” e, embora já duvidasse que eu fosse sair com vida daquele episódio, passava na minha cabeça que, caso vivesse, seria muito engraçado contar esse fato um dia a alguém.


Tal pensamento fez com que eu começasse a rir e então a coisa piorou.

Interpretando meu riso como cinismo, passaram os policiais a me baterem mais ainda, até que Encarnación, talvez para me livrar da pancadaria, gritou para os tiras:


“Denise Crispim é minha filha. Eu sei onde ela está e, se não a entreguei para a polícia do Brasil, não é para vocês que eu vou entregar”.


De imediato, deixaram os policiais de me agredir e o chefe deles perguntou a Encarnación: “O que a senhora está falando?”


Encarnación, que falara em português, repetiu as mesmas palavras em espanhol, pausadamente, e encarou o policial com firmeza.


Na verdade, até então, não sabiam os tiras que Encarnación era mãe de Denise, mesmo porque seus documentos não continham o sobrenome Crispim, pois constava deles apenas Encarnación Lopes Peres.


A situação engrossou após ouvirem da corajosa revolucionária que, além de ser a mãe da pessoa a quem procuravam e de saber onde ela estava, não iria dizer-lhes.


Desafiados por uma senhora que acreditavam frágil, os policiais sentiram-se atingidos em seu orgulho.


Agarraram-nos com a violência à qual estão habituados, arrastaram-nos para fora do apartamento, entre socos e pontapés descemos as escadas até o pátio do residencial, onde nos enfiaram na viatura, sob os olhares solidários de diversos vizinhos que viam a cena, sem que nada pudessem fazer.


Não sabíamos para onde nos levavam, mas, durante o trajeto, os quatro policiais nos faziam ameaças de toda a espécie, enquanto Encarnación e eu, no banco de trás, não dizíamos nenhuma palavra, espremidos entre dois tiras.


Passando pela Praça Itália, pude ver de longe o companheiro Paulo Sandroni parado na esquina, provavelmente esperando uma oportunidade para se refugiar na embaixada da Argentina, que ficava a poucos metros do local onde se encontrava.


O carro parou na Rua General Mackenna e percebi que novamente voltaria à sede policial, agora como preso, onde, dias antes, estivera para buscar meu passaporte, em meio ao tiroteio do golpe.



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