Portinari


Após minha volta ao Brasil, em julho de 1974, passei um período de semiclandestinidade e voltei para Ribeirão Preto no segundo semestre de 1977.

No ano seguinte, já ambientado na terra natal, fui convidado para uma festa de aniversário na casa de uns vizinhos que, como eu, moravam no bairro Campos Elíseos.

No local, eu acabei sendo a atração, pois minha história era conhecida na cidade e todos queriam saber sobre a prisão, minha fuga, o exílio e meu retorno à pátria.

Assim, a conversa fluía entre os acordes do violão que eu dedilhava e a cerveja gelado servida pelos anfitriões.

Em certo momento aproxima-se uma senhora que ouvira a conversa e lhe chamara atenção eu ter me declarado comunista, sobretudo porque vivíamos em uma ditadura militar.

Disse que simpatizava muito com a doutrina Comunista e que por anos havia namorado o “Candinho”.

Perguntei-lhe quem era o Candinho e ela não hesitou em e me dizer que se tratava do grande pintor Cândido Portinari, nascido na cidade de Brodowski, vizinha a Ribeirão Preto.

Fiquei perplexo, sobretudo, pela simplicidade como aquela senhora falava e ela passou a discorrer sobre sua convivência com aquele gênio da arte, histórico militante comunista.

Um pouco mais tarde a senhora se despediu, não sem antes me passar seu endereço, dizendo que ela possuía alguns quadros do Candinho e que fazia questão de me presentear com um deles.

Não acreditei em suas palavras e a paranoia fruto da repressão existente no país me fez pensar até que ela poderia ser alguma agente da ditadura. Assim, decidi não procura-la.

Anos de pois, em grupo de corrida do qual eu participava, pois já era praticante daquele esporte, conheci Cláudia, filha de um sobrinho de Portinari. Contei-lhe essa História e ela disse que iria conversar com seu pai a respeito.

Dias depois ela me traz a resposta, confirmando ser verdadeira a fala que aquela senhora teve comigo na festa em 1978.

Infelizmente não me recordo mais do nome dessa simpática e generosa namorada do Candinho... Não fossem minhas dúvidas, hoje teria em casa um quadro pintado pelo imortal Cândido Portinari.

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