Os Conselhos


Domingo à noite.

Eu estava em casa dedilhando ao piano a melodiosa “Clair de Lune”,do impressionista Debussy, quando toca a campainha e fui abrir a porta para meu cliente Ramiro.


O rapaz tinha algumas “broncas” na polícia e no Judiciário, estando com a prisão preventiva decretada em um dos processos no qual era réu, enquadrado no artigo 157 do Código Penal.


Por esse motivo saia muito pouco à luz do dia e nunca ia a meu escritório, preferindo com minha aquiescência ir visitar-me em casa domingo à noite para consultar-me como advogado.


Estava dando as orientações a Ramiro quando chega meu filho “Rafael”. Um pouco nervoso ele me contou estar namorando uma moça em um bairro da cidade e o ex-namorado da jovem o estava ameaçando, proibindo que ele a visitasse.


De imediato meu cliente, muito prestativo, disse estar à disposição para qualquer eventualidade e que bastava meu filho lhe passar o nome e o endereço do enciumado ex que ele iria “dar uns conselhos para ele”.


De pronto agradeci os préstimos de Ramiro, até porque imaginava qual seria o “calibre” dos seus conselhos, temeroso que o caso tivesse um desfecho do tipo “cena de sangue no bairro”, parafraseando Paulo Vanzolini na música “Ronda”.


Nos dias que se passaram, meu filho administrou seu problema de forma mais convencional e Ramiro continuou me visitando ao domingos quando necessitava de orientação jurídica, mas me deixou claro:


- “Doutor, quando o senhor precisar de meus “conselhos” eles estarão sempre engatilhados”.


Leopoldo Paulino.


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