O Rei dos Hunos x O Tribuno de Roma


No mês de outubro de 1973 cheguei ao Panamá, retirado do Chile pelo governo daquele país depois de ser preso pelos esbirros de Pinochet e passar vinte dias na embaixada panamenha, juntamente com quase 300 refugiados políticos.

Beti, minha mulher na época, havia saído do Chile com nosso filho Tico, no primeiro voo que o governo panamenho providenciou e eu desembarquei no país caribenho no segundo voo, com dezenas de refugiados latino-americanos.

No Panamá os homens foram levados para a província de Los Santos e alojados nas cidades de Chitré e Guararé, essa última onde estive hospedado.

As mulheres e crianças já estavam na capital do país e fomos informados pelo governo panamenho que alguns dias depois iríamos ao encontro da família, o que realmente aconteceu.

Em Guararé ficamos em uma pensão e no quarto em que estive acomodou-se também o camarada Maninho, cujo nome era Ronaldo Dutra Machado, o “Amaral” da ALN.

Estavam ainda na habitação os companheiros Cícero Viana, da ALN e Valneri Antunes, o Átila, da VPR.

Finalmente, depois dos dias difíceis em virtude do golpe militar no Chile, dos dias confinados na embaixada do Panamá, que solidariamente nos acolheu e de um voo tenso, pudemos sair às ruas e desfrutar da hospitalidade do povo panamenho.

Certa noite Cícero esteve em um bar e se empolgou um pouco na cerveja, chegando à pensão um pouco tarde, onde eu e Átila já nos encontrávamos.

Um pouco alterado, Cícero começou a fazer brincadeiras com Átila, que atingiam sua honra de homem dos pampas.

Começou dizendo: “Gaúcho é tão macho, até debaixo de outro macho”!

Átila não gostou da brincadeira e manifestou sua contrariedade ao companheiro de quarto.

Em seguida, Cícero passou a cantar:

“De manhã bem cedo

Chimarrão bem quente

E uma pica grande

No cu da gente”!

O valoroso gaúcho se alterou e disse que se o “cantor” não parasse ele ria enchê-lo de porrada.

Fiz um apelo a Cícero para que ele deixasse de brincar, pois nosso camarada não estava gostando e além do mais, a situação poderia evoluir para um embate físico, o que causaria um mal-estar entre os refugiados e principalmente para nossos anfitriões.

Comecei a falar alto para tentar evitar o confronto, mas percebi que sozinho não teria condições físicas de segurar os contendores.

Nesse momento chega o companheiro Maninho e de imediato pedi seu apoio para evitar que algo pior acontecesse.

Indiferente a nossos apelos, Cícero continuava a cantoria:

“E de madrugada

Uma caralhada”.

Nesse momento o caldo entornou e Átila partiu para cima do inoportuno brincalhão, enquanto Maninho tentava agarrá-lo com firmeza.

Ao mesmo tempo me aproximei de Cícero elevando o tom de voz e conseguindo convencê-lo a sair do quarto comigo.

Andei um pouco com ele pelas proximidades da pensão e voltei depois que ele sossegou e concordou em se alojar provisoriamente em outro quarto.

No dia seguinte, no café da manhã, Cícero dirigiu-se a Átila e lhe pediu milhões de desculpas pelas brincadeiras que não haviam agradado.

Agradeceu a mim e a Maninho pela nossa intervenção e passamos todos a conversar sobre a situação política e como seria a nossa volta para o Brasil.









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