Igreja é Foda



No final de 1977 voltei para Ribeirão Preto, depois de quase cinco anos no exterior, no exílio e mais de três no Brasil, morando em outras cidades, em regime de semiclandestinidade. Em 1978, estruturamos na cidade o Movimento do Custo de Vida, a exemplo de São Paulo, com a participação do PCdoB, pessoas ligadas à Igreja Católica e alguns comunistas sem vínculo partidário, como era meu caso. Assim, realizávamos nossas reuniões em uma igreja situada em um bairro popular, na qual o padre era progressista e autorizava que fizéssemos os encontros do movimento aos domingos. Eu levava meu violão, tocando e cantando músicas com mensagens de cunho revolucionário e conversávamos com as pessoas presentes, denunciando o aumento do custo de vida e o arrocho salarial, mostrando que o baixo poder aquisitivo do povo brasileiro era obra da ditadura militar que governava o país. Nosso trabalho crescia rapidamente e passou a incomodar o padre, que temia perder seu “rebanho” e os poucos militantes progressistas da Igreja Católica que, por essa razão, eles e o anfitrião passaram a hostilizar a nós, comunistas, procurando impedir que participássemos das reuniões do movimento. Já cansado dessa atitude sectária, em certo domingo disse ao velho comunista Arlindo Teixeira, que participava do movimento, camponês tarimbado na luta contra o sistema capitalista: - Arlindo, igreja é foda. Com a calma que sempre o caracterizou, Arlindo me respondeu: - Craro que é foda, Leopordo! Faz quase dois mir ano que eles engana o povo com um trem que não existe.

3 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo