Coração e Cabeça




No final de 1964 eu terminara o ginásio e no ano seguinte, com 14 anos, iniciava o curso clássico no Colégio Otoniel Mota em Ribeirão Preto.

O golpe militar era recente e a esquerda procurava se articular para enfrentar a ditadura. No primeiro dia de aula o professor de filosofia Célio Costa se apresentou e fez uma alocução sobre o Golpe, dizendo que a quartelada de 64 foi a “melhor coisa que já aconteceu no Brasil”.

O medo reinava no país devido à brutal repressão que os ditadores impunham ao povo brasileiro, o que fazia com que nós, estudantes de esquerda, tivéssemos alguma cautela para contestar aquela apologia da ditadura.

Como se não bastasse, para um adolescente como eu era difícil do ponto de vista intelectual debater com um professor de filosofia. Mesmo assim, em duas ou três oportunidades interrompi Célio, contestando alguns pontos de sua doutrinação.

Antes que o período letivo se iniciasse meus pais haviam me avisado sobre a postura direitista daquele professor e minha mãe, que dava aulas de psicologia naquela Instituição de Ensino, me relatara alguns comentários feitos por ele a favor da ditadura. Célio era militante do MAD (Movimento de Ação Democrática), grupo fascista que apoiou o golpe militar.

No início da aula o professor Célio já havia adotado o livro “Manual de Filosofia”, de C. Lahr, autor reacionário, dizendo que nas provas apenas aceitaria respostas dos alunos que reproduzissem o pensamento daquele escritor, católico ultraconservador e ferrenho anticomunista como nosso professor.

Encerrando sua fala, Célio disse com ênfase:

- Entendo alguns posicionamentos de vocês estudantes, pois sei que o homem com 20 anos que não é comunista não tem coração e com 40 não tem cabeça.

Não me contive e levantei a mão perguntando:

- O senhor já foi comunista?

De imediato o professor fascista respondeu:

- Não.

Com firmeza emendei:

- Então o senhor nunca teve coração!

Leopoldo Paulino.

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