Chile, 11 de Setembro de 1973.


No dia 11 de setembro, levantei-me cedo. Liguei o rádio e ouvi a voz grave do presidente Allende dizendo ao povo que fora eleito para um mandato de seis anos e que, portanto, não renunciaria e somente sairia do palácio morto.

Era o início do golpe.

Beti e corremos para tomar um ônibus que nos levasse ao centro para que pudéssemos retirar nossos documentos, na sede da polícia pois era nossa intenção viajar para a Argentina no dia seguinte. Já no coletivo o clima estava pesado.

Ao perceber que éramos estrangeiros, uma mulher começou a defender o golpe e acusar-nos de sermos agentes cubanos, enquanto eu a mandava “à puta que pariu”.

Algumas pessoas do ônibus a apoiaram e a grande maioria ficou do meu lado, o que quase gerou um sério conflito.

Margeamos o Rio Mapocho, que corta Santiago, e chegamos ao nosso destino. Descemos do ônibus a cerca de 400 metros do palácio presidencial e ouvimos forte barulho de tiroteio, enquanto aviões da Força Aérea chilena davam rasantes e metralhavam o palácio.

Na sede da polícia chilena, reinava o caos, com funcionários saindo do prédio rapidamente.

No andar superior, encontramos uma única funcionária que já deixava o local.

Quando lhe dissemos o motivo de nossa presença, pegou uma gaveta cheia de passaportes, jogou-a sobre a mesa e disse que procurássemos pelos documentos enquanto descia a escada correndo.

Reviramos os passaportes, encontramos os nossos, devidamente vistados, e ganhamos a rua apressadamente, com a intenção de sair do centro da cidade o mais rápido possível.

Na rua, a confusão aumentara.

O tiroteio era mais intenso e tanques de guerra passavam em direção ao palácio, enquanto os aviões militares continuavam a dar seus voos e disparavam rajadas de metralhadoras.

Os ônibus, todos de portas fechadas, passavam pelo local carregando somente o motorista e o cobrador e não paravam para ninguém, fugindo rapidamente do centro, enquanto os automóveis, em alta velocidade, procuravam também distanciar-se ao máximo do palco dos combates.

Só conseguimos chegar em casa pagando em dólar ao motorista de um carro da funerária.

Pela televisão, que passamos a assistir na casa de um vizinho, acompanhávamos o desenrolar dos acontecimentos, com a ação militar se intensificando e a resistência ao golpe dando seus sinais.

Por volta de 14 horas, os golpistas iniciaram o bombardeio ao palácio, em face da terminante recusa de Allende em aceitar a proposta dos militares fascistas para que ele e seus ministros deixassem o governo e saíssem do país com suas respectivas famílias.

A covardia dos asseclas de Pinochet chegou a tal ponto que, quando o negociador do presidente, o Vice-Ministro do Interior Daniel Vergara, voltava ao Palácio portando a convencional bandeira branca, recebeu uma rajada de fuzil nas costas, disparada por um dos militares fascistas.

Após o bombardeio, o palácio foi tomado de assalto pelos comandados de Pinochet.

Allende e os companheiros que estavam com ele resistiram bravamente e morreram todos na batalha, inclusive o presidente.

Não satisfeitas, tropas golpistas rumaram para a residência presidencial e a saquearam, permitindo também que participassem do saque dezenas de civis, militantes de direita e jovens de famílias da alta burguesia chilena que, sob a proteção do Exército, carregavam todos os pertences pessoais da família do presidente.

Ao mesmo tempo, a cena era transmitida por uma emissora de televisão, já controlada pelos golpistas, com o apresentador fazendo todo tipo de comentário desairoso a cada objeto que era retirado da casa.

Morto o presidente, os golpistas constituíram uma Junta Militar para governar o país, composta pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, além do comandante do Corpo de Carabineros, sob a presidência do general Pinochet.

Os golpistas passaram a governar o país, decretaram o estado de sítio e o toque de recolher, que proibia a permanência de qualquer pessoa nas ruas.

O toque de recolher vigorou por vários anos durante a ditadura de Pinochet.


(Livro Tempo de Resistência 11ª. Edição P. 324 a 327)

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