Bens materiais acima de tudo


Julho de 1974.

Eu acabara de voltar do exílio e sabia que corria o risco de ser assassinado, se descoberto pelos agentes da ditadura militar.

Provisoriamente estava morando no sítio da família de Beti, na área rural de Santa Rita de Passa Quatro, cujo acesso era possível somente por estrada de terra.

Era um sábado à tarde e meus pais foram me fazer uma visita.

Enquanto minha mãe ficava conversando na casa, meu pai me convidou para sair, pois precisava falar comigo. Disse-me então que eles estavam muito preocupados comigo, pois o local em que eu estava vivendo possuía condições precárias de segurança, o que me fazia presa fácil da ditadura.

Na oportunidade disse ao “velho” que eu havia decidido voltar para a terra e que permaneceria aqui, integrando-me ao cotidiano brasileiro até que conseguisse fazer contatos com alguns grupos de esquerda.

Já voltávamos para o sítio quando passou por nós, com muita velocidade para uma estrada de terra, um Volkswagen bordeaux com um homem ao volante, a mulher ao lado e duas crianças atrás.

A poucos metros havia uma bifurcação na estrada e por alguma razão o homem se atrapalhou e o carro entrou no barranco, capotando duas vezes.

O motorista saiu do veículo com muita dificuldade e olhava para o automóvel com as mãos na cabeça.

Meu pai parou o carro e descemos correndo para ajudar, conversando com a mulher e as crianças, que choravam muito.

De imediato nos propusemos a levar a família até o hospital mais próximo, enquanto o homem, a despeito das crianças chorando e de sua companheira estar muito assustada, olhava fixamente para o automóvel destruído e apenas se lamentava dizendo: “Cinco milhão de prejuízo” ...

Eu e Moacyr nos afastamos e seguimos nosso caminho, enquanto eu dizia: “O que a ditadura fez do meu país! Quanta luta temos pela frente” ...

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