A puta do Haiti



Início da década de 70.


No Chile as organizações armadas do Brasil haviam criado uma Frente, para prosseguir no combate à ditadura militar.


Assim, no Chile de Allende havia muitos exilados políticos brasileiros e de outros países da América Latina, razão que fez com que a Frente decidisse organizar em Santiago um treinamento com o objetivo de preparar seus quadros para retornarem clandestinamente ao Brasil para o enfrentamento.


Com esse objetivo essas organizações entraram em contato com grupos guerrilheiros dos países do Cone Sul, ficando entre todos decidida a realização do Curso.


Como militante da ALN coube a mim a tarefa de, com outros companheiros de luta, participar da preparação da infraestrutura e do transporte de militantes que comporiam o evento.


Uma das condições estipuladas para fazer parte do curso era a utilização de capuz por parte dos militantes, com o objetivo de preservar a identidade de todos.


No dia marcada para o início da preparação, aconteceria uma aula, ministrada pelo companheiro Wânio José de Matos, capitão da PM de São Paulo e militante da VPR.


Nós, alunos, começamos a entrar no recinto encapuzados, conforme as normas estabelecidas.


Na oportunidade entra na sala o companheiro Luís Travassos, o Júlio da ALN, que em 1968 foi presidente da UNE e que no exílio decidira ingressar na ALN, pois no Brasil fazia parte de outro agrupamento político.


Seguramente esquecendo-se do capuz, ele cobriu a face com um cachecol, que a todo momento escorregava, o que o obrigava com frequência a apertar a peça no rosto.


Antes que os trabalhos se iniciassem, o camarada Wilson Nascimento Barbosa, o “Negão” da ALN, um dos instrutores do curso, chamou Travassos a um canto e ouvi quando o Mestre lhe perguntou:


E você, Camarada, do que está disfarçado? De puta do Haiti?”


O Café Haiti era um café bar localizado no centro de Santiago, local onde os exilados brasileiros costumavam se encontrar para conversar e degustar o café, bebida que trazia o gostinho saudoso da Terra e o valoroso companheiro Wilson não resistiu à vontade de fazer a piada.


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