A PRISÃO DE IBIÚNA


No dia 12 de outubro de 1968 fui preso com mais quase 800 estudantes, quando participávamos do 30º Congresso da UNE.

Pela natureza clandestina do Congresso, não sabíamos onde estávamos e enfrentávamos dificuldades na estrutura do sítio, a comida era insuficiente para tantos participantes e sem alojamento adequado nos revezávamos em turnos para dormir.

Amanhecia o dia 12 de outubro, havíamos passado uma madrugada muito fria e a chuva fina. A turma do segundo turno ainda dormia quando ouvimos os primeiros tiros.

Gritos por toda parte anunciavam a chegada das tropas, “Polícia!”, tiros eram disparados para o alto, algumas balas atingiram parte do acampamento.

Juntamente com oito ou dez companheiros, corri em direção à mata, quando um de nós, mais experiente, ponderou que deveríamos voltar e sermos presos com os demais.

Com as mãos na cabeça, os PMs armados com submetralhadoras e revólveres, nos receberam com chutes e coronhadas. Gritavam enquanto nos espancava: “Estão com medo de cair no barro, filhos da puta?”.

Dois estudantes que foram presos conosco escorregaram e foram pisoteados pelos PMs, que com sua ação confirmavam sua vocação “heroica” de, com armas na mão, agredirem pessoas indefesas.

Juntando-nos ao grupo, fizeram-nos permanecer sentados no chão, sob a mira das armas, enquanto revistavam o local, recolhendo objetos de uso pessoal, livros e documentos políticos do congresso.

Iniciamos, então uma marcha de cerca de oito quilômetros, escoltados pelo batalhão da PM e pelos policiais do DOPS, sob chuva e pisando na lama, ouvindo as provocações e os insultos, de vez em quando, agrediam gratuitamente algum de nós, até chegarmos finalmente à rodovia, onde vários ônibus e caminhões nos esperavam.

O trajeto fora penoso, sobretudo em virtude da debilidade em que nos encontrávamos devido à má alimentação de vários dias.

No momento de nossa prisão, soube estarmos em Ibiúna, cidadezinha situada perto de Sorocaba, no sítio Murundu, onde se realizava o 30º Congresso da UNE.


(Trecho do Livro Tempo de Resistência 11ª. Ed., de Leopoldo Paulino, Capítulo Ibiúna págs. 119 e 120).

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