1974: “Canción del Exílio” e minha mãe.


Eu estava exilado em Buenos Aires e havia decidido voltar para o Brasil. Em julho meus pais estiveram me visitando e com eles discuti minha decisão de voltar ao Brasil. – assim nós exilados chamávamos o Brasil.

Eles consideravam melhor viajarem comigo, no mesmo ônibus, para o Brasil, em poltronas distantes da minha, para que pudessem me dar cobertura sem demonstrar que eu estava com eles.

Nas vésperas da volta, mostrei aos dois o cartaz do show “Canción del Exílio” no qual eu me apresentei junto com o grupo “Caldo de Cana”. Dirigida por Angusto Boal, a apresentação foi uma denúncia contra os crimes praticados pela ditadura brasileira. Disse-lhes ainda na ocasião que sentia muito, mas que por medida de segurança não traria o cartaz para o Brasil.

Minha volta ao Brasil transcorreu normalmente. Fui tomado por forte emoção, ao pisar novamente na Terra depois e quase 5 anos de exílio. No entanto, estava em situação semi-clandestina, por segurança morei em São Carlos, Araraquara, Pindorama, São José do Rio Preto e somente depois de mais de três anos pude retornar a Ribeirão Preto.

Um dia, quando estava morando nos fundos da casa de meus pais, minha mãe então entregou-me um papel amarelo dobrado em várias partes. Ao desdobra-lo, levei um susto: era o cartaz do show “Canción del Exílio”.

Minha mãe sem me dizer nada, dobrara todo o papel e o colocara nas roupas íntimas e por essa atitude da comunista Maria Aparecida, o cartaz da “Canción del Exílio” pôde ser preservado como documento histórico.

Hoje o original decora nossa sala e a cada vez que o contemplo não posso de deixar de sentir um orgulho e um respeito enorme por minha mãe: uma mulher forte, com excelente compreensão política e revolucionária e que no dia de hoje contemplaria 98 anos.

Maria Apparecida Teixeira Paulino: PRESENTE!

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