1973 – Golpe do Chile: enterrando armas.


Desde os primeiros dias do golpe, a televisão chilena divulgava nota da Junta Militar instigando a população a denunciar os estrangeiros exilados no país. Não fomos delatados, pois os vizinhos de esquerda nos apoiavam e os de direita não nos entregariam por amizade.

O vizinho em frente era de direita e aplaudiu o golpe. Mas, quando foi ao centro da cidade, voltou assustado com a quantidade de cadáveres que viu nas ruas e boiando no Rio Mapocho.

Em 16/09, Manoel e Garcia, contatos do Partido Socialista no prédio, já acreditavam que o golpe se consolidara. A resistência fora submetida pelos golpistas, a luta contra Pinochet seria a longo prazo.

Propuseram, então, que enterrássemos nossas armas e o material cirúrgico que estava com Garcia. Para isso, saltamos o muro que separava nossos prédios do Instituto Pedagógico e, em sacos plásticos, enterramos o material depois de engraxá-lo bem.

Tomamos o máximo de cuidado possível, pois o campus da Universidade estava ocupado pela Força Aérea. Terminada a tarefa, saltamos o muro de volta e já nos dirigíamos a nossas casas quando Garcia lembrou de que as peças do material cirúrgico continham as iniciais de seu irmão, médico que participava da resistência.

Pulamos o muro de novo, abrimos a cova, retiramos todo o material cirúrgico e enterramos novamente as armas no mesmo local. Já terminávamos a tarefa, quando ouvimos passos e vozes de várias pessoas que vinham em nossa direção.

Corremos para o muro, que escalei com extrema velocidade e de cima ajudava os companheiros a saltá-lo, quando os recém-chegados deram de cara conosco. Passado o susto de ambos os lados, todos riram, pois eram quatro militantes do Partido Comunista Chileno que lá estavam para fazer o mesmo serviço que nós.

Em 2009 quando voltei ao Chile perguntei para os moradores do residencial se o muro havia sido modificado e eles me disseram que o muro conservava a mesma altura que tinha quando o saltei. Fiquei perplexo do quão alto já era em 1973.

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